quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Carta para Nina



Nina, eu li o seu texto hoje pelo Facebook e me deu muita vontade de te escrever sobre ele. Pensei bastante sobre isso e resolvi seguir a minha vontade, porque já li muito a revista TPM e conheço o seu trabalho, mas principalmente porque você é mulher. Eu sou uma feminista radical. Normalmente tendo a ignorar afirmações que considero equivocadas quando o remetente é um homem, porque estou velha e já cansei muito da briga suja. Mas quando o remetente é mulher eu sinto essa imensa necessidade de responder mesmo. Por me sentir parceira, por sororidade, pela irmandade que eu acho que a gente tem que ter. Também porque eu amo ouvir as mulheres. Foi fazendo isso que eu aprendi as coisas mais importantes da minha vida. Eu disse tudo isso pra que você saiba que essa carta não pretende ter um tom professoral e muito menos difamatório. Sou feminista radical, mas como já te disse: cansei da briga suja.

No seu texto você elabora o que te interessa e o que não te interessa no feminismo. Começa dizendo que o machismo no Brasil se esconde. Você tem razão em certo ponto: Para nós, moças que tivemos contato com teorias de esquerda social, que conhecemos homens que “dividem as tarefas domésticas”, que andamos nos nossos carros e táxis sem contato com o verdadeiro assédio de rua, ele está mesmo muito bem escondido. Mas para a maioria das mulheres o machismo é muito real e muito óbvio. Ele está no cara que se esfrega em você no ônibus, ele está no chefe que desmerece a sua opinião, está no marido que te bate, no tio que te estupra, no policial que não te leva a sério, no patrão que te paga menos...

Esse machismo real também aparece pra gente de vez em quando. No momento em que uma amiga sofre uma tentativa de estupro na balada, na hora que a nossa irmã diz que fez sexo com o namorado sem ter vontade, quando as nossas mães e tias perguntam por que estamos solteiras... Ops, olha o machismo aí, totalmente sem pudor, escondido em lugar algum.

O que nós, feministas radicais, achamos é que tem um padrão muito mais sedimentado na gente do que a gente consegue enxergar. Estamos muito interessadas em criticar e tentar acabar de uma vez por todas com a representação mal ajambrada que a mídia faz das mulheres (e que acaba virando a interpretação que muitas mulheres têm de si mesmas). Estamos interessadas em legalizar o aborto (e extinguir a noção de que a mulher é mãe naturalmente e não pode abrir mão desse papel). Estamos interessadas em mostrar que o miss Bumbum é mais um alerta de que o nosso corpo continua sendo tratado como objeto. Nossas irmãs do feminismo liberal dizem que a mulher tem que usar o corpo do jeito que quiser, inclusive para o Miss Bumbum e para a prostituição. Nós, por outro lado, entendemos que esses usos são fruto de uma estrutura patriarcal, atendem ao desejo masculino de ter a mulher disponível fisicamente como coisa. É só a velha estrutura funcionando.

Para nós, os homens que pagam a conta, abrem a porta do carro e praticam assédio na rua estão repetindo essa mesma lógica. E veja bem, aqui não estamos falando daquele amigo que ocasionalmente elogia a nossa roupa, do namorado que também escuta que é gostoso, do colega que deixa você entrar primeiro no elevador. Todas as coisas que você citou no seu texto (como o feminismo que não é do seu interesse) são situações pessoais, que você vive no seu ambiente – um lugar seguro – onde você está protegida. Os garotos no palco que estão ouvindo você gritar “gostoso” não vão te imprensar contra a parede e dizer “eu sei que você quer, sua vagabunda, afinal me chamou de gostoso!”

Nós estamos falando de mulheres que no ponto de ônibus são sempre a vítima mais óbvia, Nina.Estamos falando dos casos New Hit da vida. Quantos desses homens cavalheiros que você conhece praticam a tão polida educação com outros homens? É até bizarro lembrar que uma mulher pobre na rua vai ser um alvo muito menos provável desse tal cavalheirismo não é mesmo? Esse assunto de quem paga a conta não existe para você. Mas para muitas mulheres é o poder – inclusive o financeiro – que determina a equação. É nesse ponto que eu queria chegar em todo esse texto longo: O feminismo não é sobre você – a Nina Lemos conhecida, com bons amigos, ambientes protegidos e situações ímpares. Ele é sobre você e todas as outras mulheres que, diferentemente de você, pelo que pude perceber, estão sim sob o domínio de um poder disfarçado de cavalheirismo, disfarçado de boa vontade e disfarçado de proteção.

Nina, eu queria te convidar para se interessar por essas coisas também. Não que vá te chamar para participar de uma reunião radfem amanhã e brigar contigo sobre tudo que temos discutido aqui e no seu texto. Você lembra que lá em cima eu falei: estou cansada da briga suja.

Mas eu queria te convidar para se interessar no porque de tantas meninas cederem aos namorados que abrem a porta para elas, no motivo de tantas mulheres ainda ganharem menos que os homens, na razão que leva os meninos a não saírem da situação confortável em que estão porque “ah, eu sou cavalheiro com a minha amiga, não preciso pensar no resto”.

Para a sua independência uma cadeira puxada não é nada mesmo. Mas lembre que para a maioria das mulheres do mundo a independência não mandou nem lembranças. Que bom que você está certa da sua liberdade. Quem sabe a gente não consiga dar essa certeza a tantas outras mulheres por aí, não é mesmo? Mas por enquanto, não é o caso.

E quanto ao Emicida, devo dizer: se mesmo as nossas irmãs mais conscientes cometem equívocos de discurso, porque um homem – criado no patriarcado – por mais bem intencionado que seja, não cometeria também?



Um abraço dazirmã RadFem, querida.

Com muito amor de verdade,

Julia Lacerda

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